Terça, 28 Abril 2020 12:22

O advogado em ação

Representante Estadual (Paraíba) - Carlos Pessoa de Aquino
O advogado em ação, na minha concepção, um dos instantes mais gratificantes, emocionantes e dignificantes como advogado, é na ação, na plena atuação, na vibração no púlpito, nas sustentações orais, e no júri, com as vestes talares sobre nossos ombros a executar o que aprendemos, sofremos e vivemos em nossa apaixonante atividade profissional. O jurista italiano Piero Calamandrei, afirmou certa feita que queria ser enterrado com a sua beca, porque ´se ela me ensinou a abrir os portões de masmorras, me ensinará a abrir a porta dos céus´. Confesso ser um romântico da advocacia, pois ainda me encanta a edificante experiência de vivenciá-la com toda vibração e com tudo que ela me exige. Ser advogado é um repositório inesgotável de observações, instantes e contatos com as diversas facetas humanas e uma fascinante continua e ininterrupta viagem no clima ardente dos Tribunais.

Na incessante luta da advocacia, temos encontros e desencontros, néctar e fel, vitórias e derrotas, invernos rigorosos e primaveras luminosas. Nas tribulações da consciência e nas rudezas de nossas lutas, crescemos como pessoas, cidadãos e profissionais. Nos debates forenses a terçar armas com as teses oponentes, buscamos nas letras, nos trovadores, vates e poetas de todos os matizes, os ornamentos e os encantos das robustas orações. Dos compêndios, extraímos doutrina, jurisprudência e o perfeito tirocínio para subsidiar teses consistentes e a concatenação das melhores ideias. Com a arte da palavra, municiado de uma educação exemplar e de berço, temos a urbanidade devida, associada a ética que nos impõe com a argúcia, o talento e a vocação. O fascínio de advogar, se traduz neste brado, verdadeiro canto à advocacia, entoado pelo pontífice dos advogados brasileiros, o grande Rui Barbosa. ´No quase meio século que já mede a nossa carreira forense, temos tido, muitas vezes, a honra de perder abraçado com as causas mais justas, mais santas, mais gloriosas, para, anos depois, recebermos o consolo dos nossos reveses, vendo laurear os princípios, com que, tempos antes, haviam sido esmagados´. Maître Langlois respondeu certa feita uma indagação porque se incumbia tantas vezes de más demandas e assim respondeu: ´Tantas boas tenho perdido, que já não sei de quantas me encarregue´. Falsa a estima do valor de uma causa, de uma reivindicação jurídica, pelo seu desfecho.

A esgrima advocatícia faz com que nós possamos lavrar a terra estéril e nela buscar seus frutos tendo como instrumentos de trabalho, o estudo, as leituras, o saber e a alma da nossa pena. Mesmo que tantas incertezas adunem de nuvens sombrias os horizontes das nossas causas, as impregnamos de paixão pela Justiça e devoção ao Direito, pelo sopro do espírito e o ar da beleza em nossos escritos, sem nos deixar levar pela sedução do ato frio, mecânico, em detrimento do trabalho apurado, sóbrio, equilibrado, elaborado com engenho e arte. Nesse mundo de encantos e vibrações, de amor ao estudo, o exercício contínuo das faculdades superiores do pensamento, a tolerância e o exercício da paciência a se contrapor as eventuais crises incoercíveis de impaciência, numa atividade profissional que Voltaire dizia: ´A advocacia é o mais belo estado do homem´, é que se diz que nenhum outro profissional tem um contato tão estreito com as grandezas e as misérias do homem, e por isso mesmo, um dos mais incompreendidos, embora, sejam os advogados amantes e defensores intransigentes da liberdade. Esse denodado amor à liberdade é que se exige dos advogados serem como são, cultores do direito, da sensibilidade, do altruísmo e da abnegação.

Assim, concluo que o tântalo do advogado, insaciável, torturante, eterno, é a leitura e através desta, encantar-se com a magia dos foros dessa ciência ramificada na amplitude magna dos conhecimentos humanos que só admite seu ingresso, aos enamorados dos seus segredos e atraídos por suas infindáveis dificuldades, sem medrar, a exercê-la com coragem e dignidade."